Orkut, Facebook e o despertar social das marcas: o case Electrolux
A evolução das redes sociais no Brasil, da era das comunidades no Orkut ao domínio dos algoritmos, com o case de segmentação da Electrolux Eletroportáteis.
Por Thiago Thomaz Khoury da Silva
Neste artigo
- O monólogo corporativo e o choque do Orkut
- A virada de 2011 e os dados da Comscore
- O erro das métricas de vaidade
- O case Electrolux: hipersegmentação em eletroportáteis
- A ditadura dos algoritmos e a era mobile
A internet comercial nasceu como um grande monólogo. Como relatei no artigo De sites em Flash às IAs generativas, as marcas construíam vitrines digitais estáticas e o usuário apenas consumia passivamente. A revolução das redes sociais mudou o eixo de poder: a web deixou de ser um palco e virou uma praça pública.
Neste artigo resgato a transição do mercado brasileiro na era das redes sociais. Mostro como passamos da ingenuidade das comunidades do Orkut para a sofisticação da hipersegmentação, ilustrando essa maturidade com um dos projetos mais interessantes que lideramos, para a Electrolux.
O monólogo corporativo e o choque do Orkut
No início dos anos 2000, as empresas não sabiam dialogar. O Orkut foi o primeiro grande laboratório social do Brasil. Os usuários se agrupavam em comunidades temáticas que iam de interesses profundos a piadas cotidianas. Foi ali que o consumidor percebeu que tinha voz.
As marcas, no entanto, demoraram a entender o jogo. A maioria via o Orkut apenas como espaço de adolescentes, e ignorava que a reputação dos seus produtos estava sendo debatida abertamente em fóruns onde elas não tinham controle nenhum.
A virada de 2011 e os dados da Comscore
O divisor de águas veio no fim de 2011. Segundo a consultoria Comscore, em dezembro daquele ano o Facebook chegou a 36,1 milhões de visitantes únicos no Brasil, contra 34,4 milhões do Orkut. Foi a primeira vez que a liderança mudou de mãos, depois de o Facebook crescer 192% em um ano.
O Facebook trouxe ferramentas corporativas de verdade, as fanpages, e um modelo de negócios baseado em anúncios segmentados. A partir dali, estar nas redes sociais deixou de ser brincadeira. Assim como o e-commerce exigiu profissionalização, o marketing social virou disciplina rigorosa.
O erro das métricas de vaidade
Com a explosão das fanpages, o mercado cometeu um erro primário: agências e marcas entraram numa corrida cega por curtidas. O objetivo era acumular o maior número possível de fãs em páginas institucionais genéricas.
O problema dessa abordagem era a falta de engajamento real. Uma marca que vende geladeira, aspirador de pó e micro-ondas tem públicos com interesses completamente distintos. Falar com todo mundo ao mesmo tempo, no mesmo canal, é não falar profundamente com ninguém.
O case Electrolux: hipersegmentação em eletroportáteis
Foi entendendo essa falha que lideramos um projeto para a Electrolux. Em vez de concentrar o esforço de comunicação na página genérica da marca, criamos e operamos um canal cem por cento exclusivo para a divisão de eletroportáteis.
A estratégia era ousada. Ao segmentar o canal, abrimos mão do volume bruto de fãs da página principal para construir uma comunidade qualificada. Pessoas interessadas em receitas, dicas de limpeza rápida e estilo de vida interagiam de forma muito acima da média com conteúdo sobre liquidificador vertical, batedeira e cafeteira de alto padrão.
Provamos que um canal exclusivo e nichado gera engajamento comercial superior ao de uma página institucional inchada. O usuário sentia que a marca estava conversando exatamente com o estilo de vida dele, e isso gerava desejo de compra direto na base de fãs.
A ditadura dos algoritmos e a era mobile
Logo depois dessa era de ouro do alcance orgânico, as plataformas mudaram as regras. A entrega gratuita de conteúdo despencou e começou a ditadura dos algoritmos. As redes sociais forçaram as marcas a comprar visibilidade, movimento que explico em A era de ouro do tráfego.
Em paralelo, o consumo de redes migrou quase integralmente para a tela do celular. O comportamento mudou de forma tão radical que abriu espaço para operações cem por cento digitais, e o desafio de engajar e converter pelo celular nos levou a projetos grandes, assunto do próximo capítulo desta série.
Conclusão
A história das redes sociais no Brasil ensina que a atenção do usuário é volátil. Do Orkut ao Facebook, e hoje dominados por vídeo curto e feed recomendado por inteligência artificial, o formato muda, mas o princípio permanece. O case da Electrolux Eletroportáteis segue atual porque provou que segmentação inteligente e diálogo genuíno vencem a panfletagem corporativa genérica.
Thiago Thomaz Khoury da Silva, empresário de tecnologia desde 2010.
Perguntas frequentes
- Quando o Facebook ultrapassou o Orkut no Brasil?
- Em dezembro de 2011. Segundo a Comscore, o Facebook chegou a 36,1 milhões de visitantes únicos no país, contra 34,4 milhões do Orkut, depois de crescer 192% em relação ao ano anterior.
- Vale mais a pena uma página institucional ou canais segmentados?
- Canais segmentados costumam render mais. No projeto da Electrolux, abrir mão do volume bruto da página principal para operar um canal exclusivo de eletroportáteis gerou engajamento comercial superior ao da página institucional, porque o conteúdo falava com o estilo de vida específico daquele público.
- O que foram as métricas de vaidade nas redes sociais?
- Foi a corrida por número de curtidas em páginas institucionais genéricas, que dominou o mercado depois da explosão das fanpages. O problema é que reunir públicos com interesses distintos no mesmo canal significa não falar profundamente com nenhum deles.