Thiago Khoury

De sites em Flash às IAs generativas: 20 anos de internet

Vinte anos de internet brasileira, do site em Flash com música alta à disputa por espaço dentro da resposta das IAs, com dados e cases reais.

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Quando você abre o ChatGPT hoje, digita um prompt simples e recebe uma estratégia de negócios completa em cinco segundos, é muito fácil esquecer que a internet já foi um lugar de extrema paciência. Em 2005, o cenário digital brasileiro era um deserto em fase de colonização. A pesquisa TIC Domicílios, do Cetic.br, mostra que naquele ano apenas 13% dos lares urbanos brasileiros tinham acesso à internet. A maioria acessava a rede por conexão discada ou em LAN house. Vinte anos depois, o mesmo estudo aponta 85%.

Eu comecei a vender sites exatamente naquele cenário, em 2005, ainda como estagiário de uma agência. Ao longo dessas duas décadas, vi a banda larga nascer, gigantes da tecnologia desaparecerem da noite para o dia e o comportamento do consumidor ser reescrito diversas vezes por novos algoritmos. Este artigo é o marco zero de uma série retrospectiva onde compartilho os dados reais de mercado, os cases em que atuei e a minha própria evolução técnica.

A era do espetáculo visual: o reinado do Flash em 2005

Em 2005, a internet não era sobre utilidade nem sobre velocidade de carregamento. A web era um palco, e as marcas queriam impressionar a qualquer custo. A ferramenta absoluta para isso era o Adobe Flash. Eu vendia esses sites para casas noturnas badaladas de São Paulo e para grandes lojas de roupas, e acompanhava de perto o time que os produzia.

Havia uma regra cômica e não escrita naquela época: quanto mais caro e exclusivo fosse o site, mais alta e mais longa era a música que tocava automaticamente assim que a página abria. A experiência do usuário se resumia a entrar numa URL e encarar uma barra de “Loading” preenchendo a tela por minutos.

Hoje o Google pune qualquer domínio que demore mais de três segundos para carregar, pelas métricas de Core Web Vitals. Naquela época, carregamento demorado era quase status de luxo. A internet era essencialmente estética.

Profissionalização e o primeiro CNPJ em 2010

A virada de curiosidade técnica para negócio estruturado veio em 2010, quando abri meu primeiro CNPJ. O mercado deixava de ser amador e as empresas começavam a entender que estar online era necessidade de sobrevivência.

Essa percepção amadureceu rápido. Em julho de 2011, dei uma entrevista para a Folha de S.Paulo falando exatamente dos desafios e das oportunidades de empreender na internet brasileira. Aquele registro na imprensa confirmava que a economia digital tinha engolido a economia real.

A evolução do e-commerce: da primeira loja ao império logístico

Para entender o tamanho da mudança, vale olhar o faturamento. Segundo o relatório Webshoppers, da Ebit, o e-commerce brasileiro fechou 2010 faturando R$ 14,8 bilhões. Era um mercado restrito, cheio de fricção bancária e desconfiança. A projeção da ABComm para 2025 é de aproximadamente R$ 235 bilhões, cerca de dezesseis vezes mais.

Construir a minha primeira loja virtual, um comércio de suplementos, significava lidar com integração manual e código engessado. Hoje já lançamos e gerenciamos mais de cem operações ativas de alta performance, com uma infraestrutura que permite escalar marcas como a Pantufofas e a ByBag com velocidade e segurança impensáveis nos anos 2000. Conto essa trajetória inteira em A evolução do e-commerce.

O Google, o tráfego pago e a mudança de comportamento

O fim do Flash marcou o início da era da performance. O Google passou a ditar as regras dos negócios e a publicidade migrou das revistas para os links patrocinados. Lembro do meu primeiro cliente investindo menos de mil reais por mês no antigo Google AdWords.

A maturidade das campanhas cresceu assustadoramente, e hoje gerenciamos orçamentos na casa dos milhões. Um exemplo é o case da ECID: num projeto educacional, mantivemos o mesmo volume de vendas online reduzindo o investimento em mídia em 50% depois de três meses de otimização. Os bastidores estão em A era de ouro do tráfego.

Junto com a performance de cliques, o vídeo moldou o consumo. Em 2014, inovar significava cruzar o offline com o online. Projetamos campanhas cross-media grandes, como o lançamento do Giro Citroën Gastronomia em parceria com a rádio Alpha FM, e a campanha Receita de Amor, da Dr. Oetker. Os dois projetos estão detalhados em YouTube e o pioneirismo cross-media.

Redes sociais e a transição do Orkut para os algoritmos

A web deixou de ser um monólogo das marcas para virar diálogo aberto. Vivemos a transição romântica do Orkut para a ascensão do Facebook, e depois a imposição dos algoritmos de retenção.

Nesse momento, fomos pioneiros em entender o poder das comunidades hiper-segmentadas. Um reflexo disso foi a criação da página exclusiva para a linha de eletroportáteis da Electrolux, que provou que canal dedicado engaja muito mais que perfil institucional genérico. Aprofundo essa tese em Orkut, Facebook e o despertar social das marcas.

O boom do mobile: bancos no bolso do usuário

Entre 2010 e 2016, acessar a internet deixou de ser um evento na mesa do escritório e virou extensão do corpo. O TIC Domicílios registrou o momento exato em que o celular superou o computador como principal dispositivo de acesso dos brasileiros.

Essa mudança exigiu quebra de paradigma em usabilidade e em confiança, e nós atuamos na linha de frente. No fim de 2016 e começo de 2017, o desafio era convencer as pessoas a pegar empréstimo cem por cento online pelo aplicativo da Crefisa. Defendemos essa tese em projeto, e o canal se tornou expressivo em faturamento. Pouco depois, operamos a infraestrutura na madrugada de lançamento do aplicativo da Suno Research, que teve repercussão enorme impulsionada pelo sócio Tiago Reis. Os dois cases estão em A revolução mobile.

O presente e o futuro: a virada para o GEO

A maior lição que o mercado digital ensina é que nostalgia não sustenta empresa. A internet é implacável com quem se apega às glórias e às ferramentas do passado.

O comportamento de busca mudou de novo, em escala global. O usuário parou de procurar links no Google e começou a exigir respostas prontas, curadas e comparativas de inteligências artificiais como ChatGPT, Claude e Perplexity. Entramos oficialmente na era do Generative Engine Optimization.

E os dados mostram que o SEO tradicional não responde mais sozinho pela demanda de decisão. A Ahrefs constatou que a sobreposição entre as citações do ChatGPT e as dez primeiras posições do Google é de apenas 6,82%. Ao mesmo tempo, o estudo Ghost Citations, da Semrush, revelou que marcas brasileiras são mencionadas nas respostas generativas em apenas 18% a 22% das vezes, contra 50% na Índia e na Suécia.

Eu estava lá vendendo o primeiro site em Flash com música alta em 2005. Estive na fundação do e-commerce brasileiro, na estruturação dos grandes aplicativos financeiros e na compra das primeiras palavras-chave. Hoje uso toda essa bagagem para liderar a adaptação das marcas ao ecossistema generativo.

Thiago Thomaz Khoury da Silva, empresário de tecnologia desde 2010.

Perguntas frequentes

Quando Thiago Khoury começou a trabalhar com internet?
Começou em 2005, ainda como estagiário de agência, vendendo sites em Adobe Flash. Abriu o primeiro CNPJ em 2010, quando passou a atuar como empresário no mercado digital brasileiro.
O que é Generative Engine Optimization (GEO)?
GEO é o conjunto de práticas que aumenta a chance de uma marca ser citada nas respostas de sistemas de inteligência artificial como ChatGPT, Gemini e Perplexity. Diferente do SEO, que disputa posição numa lista de links, o GEO disputa presença dentro de uma resposta escrita.
SEO tradicional ainda garante presença nas respostas de IA?
Não. Um estudo da Ahrefs apontou que apenas 6,82% dos resultados citados pelo ChatGPT coincidem com as dez primeiras posições orgânicas do Google. Estar bem posicionado na busca tradicional não garante ser citado por um modelo de linguagem.