Thiago Khoury

A revolução mobile: bancos e investimentos no bolso do usuário

A revolução dos smartphones no Brasil, o desafio de convencer o brasileiro a confiar dinheiro ao celular e os bastidores dos apps da Crefisa e da Suno Research.

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A evolução tecnológica não acontece apenas nas linhas de código dos servidores. Acontece, principalmente, na forma como a sociedade interage com as telas. Em De sites em Flash às IAs generativas mostrei como a web saiu de uma vitrine estática para um ecossistema complexo. Mas a mudança de paradigma mais agressiva da última década foi a migração do tráfego das mesas de escritório para o bolso do consumidor.

Neste artigo analiso a ascensão do mercado mobile no Brasil. Detalho o desafio de convencer o brasileiro a fazer transação financeira pelo celular e conto os bastidores de dois cases da nossa operação: Crefisa e Suno Research.

A virada de 2015: o celular vence o computador

Houve um momento exato em que a internet brasileira virou a chave. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, do Cetic.br, foi em 2015 que o celular passou o computador como principal dispositivo de acesso: 89% dos usuários acessavam pelo celular contra 65% pelo computador. No ano anterior o computador ainda liderava, com 80% contra 76%.

Essa estatística mudou todas as regras do marketing e do desenvolvimento de software. Sites precisaram ser reconstruídos com foco em responsividade, e as campanhas que descrevo em A era de ouro do tráfego tiveram que ser divididas entre lances para computador e para celular. A internet se tornou onipresente.

A barreira da confiança: dinheiro na tela do celular

Consumir rede social no celular era fácil. O gargalo real das empresas na transição de 2015 a 2017 era a confiança financeira. O consumidor brasileiro estava acostumado a ir fisicamente à agência, conversar com um gerente e assinar papel para pedir crédito.

Digitalizar serviço financeiro sensível, e transformar um processo burocrático em aplicativo de celular, enfrentava resistência cultural imensa. Havia medo de fraude, receio de interceptação de dados e a inércia natural do hábito. Foi nesse cenário de desconfiança que assumimos a responsabilidade de liderar uma quebra de paradigma no mercado de crédito.

O case Crefisa: empréstimo cem por cento online

No fim de 2016 e começo de 2017 recebemos um desafio grande: atuar no projeto do aplicativo da Crefisa. A tese que defendíamos era de que o usuário, independentemente da classe social, estava pronto para pedir empréstimo cem por cento online, sem precisar pisar numa loja física.

Desenhar a experiência para esse projeto foi uma aula de psicologia de consumo. A interface precisava transmitir segurança institucional e, ao mesmo tempo, ser intuitiva o bastante para aprovar crédito em poucos toques. A tese se provou. O canal digital da Crefisa se tornou expressivo em faturamento e ajudou a pavimentar a digitalização do crédito no Brasil, algo impensável poucos anos antes.

O case Suno Research: a madrugada do lançamento

Se a Crefisa nos ensinou sobre confiança, a Suno Research deu uma aula sobre escala e infraestrutura. O mercado de investimentos também vivia um salto de digitalização, e o engajamento construído nas redes, fenômeno que explico em Orkut, Facebook e o despertar social das marcas, era o motor dessa explosão.

Lançar o aplicativo da Suno Research foi uma operação de guerra. O lançamento aconteceu de madrugada e a repercussão foi enorme, impulsionada diretamente pela base fiel de seguidores do sócio Tiago Reis. Lidar com o pico de downloads simultâneos e garantir que servidores e bancos de dados não caíssem foi um teste definitivo de engenharia e de maturidade comercial.

O mobile como fundação para a era generativa

Colocar banco e casa de análise no bolso do usuário ensinou o mercado a consumir serviço complexo de forma instantânea. Sem essa revolução, a velocidade que o e-commerce brasileiro atingiu jamais teria acontecido.

Hoje a jornada no smartphone não é só transacional. O celular virou a ponte direta para as inteligências artificiais. O usuário que aprendeu a pegar empréstimo pelo aplicativo em 2017 é o mesmo que hoje abre o ChatGPT no celular e exige da máquina uma resposta financeira. Estar pronto para o mobile foi o ensaio geral para estarmos prontos para a era generativa.

Thiago Thomaz Khoury da Silva, empresário de tecnologia desde 2010.

Perguntas frequentes

Quando o celular ultrapassou o computador no acesso à internet no Brasil?
Em 2015. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, do Cetic.br, naquele ano 89% dos usuários acessavam a internet pelo celular, contra 65% pelo computador. Em 2014 o computador ainda liderava, com 80% contra 76%.
Qual era a maior barreira para serviços financeiros no celular?
A confiança, não a tecnologia. Entre 2015 e 2017 o consumidor brasileiro estava acostumado a ir à agência, falar com um gerente e assinar papel. Digitalizar crédito enfrentava medo de fraude, receio sobre os dados e inércia de hábito.
O que o case da Crefisa provou sobre crédito digital?
Provou que o usuário estava pronto para pedir empréstimo cem por cento online, sem pisar em loja física, independentemente de classe social. O canal digital se tornou expressivo em faturamento e ajudou a pavimentar a digitalização do crédito no Brasil.