Thiago Khoury

A IA recomenda a minha empresa em outras cidades?

Quase nunca: 96% das empresas recomendadas apareceram em só uma das 15 cidades medidas, mediu um estudo do arXiv em outubro de 2026. O que isso muda.

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Quase nunca. Um estudo da Universidade de Toronto publicado em 16 de outubro de 2026 mediu 31.200 respostas e encontrou que 96% das empresas recomendadas em perguntas do tipo perto de mim apareceram em uma só das 15 cidades testadas. Trocar a cidade de onde a pergunta sai troca quase toda a lista de nomes que a IA devolve.

Isso derruba uma suposição silenciosa que quase todo mundo faz: a de que existe uma resposta da IA, uma só, que dá para conferir do seu computador.

O que o estudo mediu

O trabalho é de Mahe Chen e Nick Koudas, da Universidade de Toronto, e os autores liberaram as perguntas, o código e as respostas.

Eles montaram 300 perguntas em dez assuntos comerciais, divididas em três grupos de cem. O primeiro é a pergunta explícita de lugar, o perto de mim. O segundo depende do lugar sem dizer isso. O terceiro não tem nada a ver com lugar.

Depois separaram duas vias pelas quais a localização pode chegar à máquina, e é aqui que o estudo fica útil. Uma é a localização que o aplicativo declara, testada em 19 pontos: 15 cidades americanas e quatro em outros países de língua inglesa. A outra é a localização da rede, ou seja, de onde a conexão sai, testada em cinco pontos, com uma das conexões repetida três dias depois para medir deriva.

Cada pergunta foi feita duas vezes em cada cenário. Isso dá a medida do ruído, que é o quanto a resposta muda sozinha, sem ninguém mexer em nada. O índice que eles usam desconta esse ruído: zero significa que o lugar não mudou nada além do que já mudaria por acaso.

O ChatGPT segue a cidade que o aplicativo declara

Entre duas cidades americanas, o índice de localização das fontes citadas pelo ChatGPT ficou em 0,14 nas perguntas perto de mim e 0,17 nas que dependem do lugar sem dizer. Entre dois países, subiu para 0,28 e 0,43. Nas perguntas sem relação com lugar, ficou em 0,00.

Agora o outro lado. Mudando só o país da rede, o índice do ChatGPT foi 0,00, 0,01 e 0,01, tudo dentro do ruído. Traduzindo para a prática: no ChatGPT, trocar o endereço de saída da conexão não muda praticamente nada. O que muda é a localização que o aplicativo informa.

Dois detalhes para quem atende por região. Sem localização declarada, o ChatGPT responde 63% das perguntas perto de mim pedindo o CEP ou a cidade antes de responder. E declarar a localização aumentou a fatia de respostas que vêm com fonte citada, de 46% para algo entre 64% e 73%.

O Gemini segue o país da conexão

O Gemini inverteu a lógica. Pela rede, entre países diferentes, o índice das fontes foi 0,43 nas perguntas perto de mim, 0,40 nas que dependem do lugar e 0,23 até nas perguntas que não têm nada a ver com lugar.

Entre Nova York e Los Angeles, na mesma rede americana, o índice foi 0,00. Ou seja, o Gemini enxerga país, não cidade.

Os autores foram atrás do motivo e acharam o rastro nas buscas que o próprio modelo escreve antes de responder: 56% das respostas perto de mim do Gemini nomearam o país nessas buscas, e nenhuma nomeou cidade. É o mesmo mecanismo que eu descrevi em O ChatGPT pesquisa a minha palavra-chave? Quase nunca: quem decide o que vai ser pesquisado é o modelo, não a frase do usuário.

E não é instabilidade. A mesma conexão, repetida três dias depois, deu 0,03, 0,01 e 0,05.

Medir de um lugar só não mede quase nada

Essa é a parte que muda o trabalho de quem acompanha a própria marca.

O mesmo pedido, declarado em uma cidade americana, recomendou apenas 8% das empresas que ele recomendou em outra das 15 cidades. Repetido na mesma cidade, repetiu 32%. Leia as duas frases juntas: a troca de cidade mexe mais na lista do que o acaso.

E a cobertura cresce devagar. Uma cidade captura 9% das empresas recomendadas no conjunto das 15. Cinco cidades capturam 36%. Dez capturam 69%, e os autores registram que a curva ainda não tinha estabilizado. Nas perguntas sem relação com lugar, uma cidade captura 19% e cinco capturam 53%.

Isso soma com um achado que eu já tinha comentado por outro caminho, em Aparecer numa IA me faz aparecer nas outras? Quase nunca. Lá a fragmentação era entre motores diferentes. Aqui ela aparece dentro de um motor só, pela geografia. São duas camadas de divisão empilhadas, e qualquer medição que ignore as duas vai superestimar o que você enxerga.

O que esse número não diz

Quatro ressalvas, porque esse dado vai virar manchete torta.

Não é o Brasil. As perguntas são em inglês, em 15 cidades americanas e quatro cidades de outros países de língua inglesa. Nenhuma cidade brasileira entrou. A leitura é minha, não do estudo: o mecanismo viaja, o número não. Dá para esperar que a resposta mude entre São Paulo e Recife, mas não dá para dizer quanto sem medir aqui.

Não mede venda nem clique. Mede fonte citada e nome de empresa citado dentro da resposta.

A extração tem erro. Os nomes de empresa foram extraídos por um modelo de linguagem, e a conferência manual dos autores acertou 29 de 36 casos.

São dois motores. ChatGPT e Gemini. Perplexity e os demais ficaram de fora.

Onde isso deixa você

Se a sua empresa atende por região, pare de tratar a visibilidade na IA como um número só.

O que eu faço com isso na prática: fixo as cidades que importam para o negócio, meço a mesma lista de perguntas declarando cada uma delas, e trato o resultado de cada cidade como uma medição separada. Para o ChatGPT, o que precisa variar é a localização declarada. Para o Gemini, o país da conexão. Conferir do escritório e concluir que a marca aparece é o erro mais barato de cometer e o mais caro de descobrir tarde.

Vale lembrar que ser citado como fonte e ser recomendado pelo nome são disputas diferentes, assunto de Por que a IA não recomenda a minha marca? Não é o tamanho, e que essa diferença entre posição e citação é a base de Qual é a diferença entre SEO e GEO? Por que o topo não basta.

Sobre como eu transformo isso em medição que se sustenta diante de uma diretoria, sem inventar métrica, escrevi em Investir em GEO vale a pena?.

Perguntas frequentes

O que a IA responde muda de cidade para cidade?
Muda quase tudo. Um estudo da Universidade de Toronto publicado em outubro de 2026 mediu que 96% das empresas recomendadas em perguntas do tipo perto de mim apareceram em uma só das 15 cidades testadas. O mesmo pedido feito em duas cidades americanas diferentes repetiu apenas 8% dos nomes, contra 32% quando foi repetido na mesma cidade.
O ChatGPT e o Gemini usam a minha localização do mesmo jeito?
Não. No mesmo estudo, o ChatGPT seguiu a cidade que o aplicativo declara e ignorou a rede: trocar o país da conexão deu índice de 0,00 a 0,01, dentro do ruído. O Gemini fez o contrário, seguiu o país da conexão com índice de 0,43 nas perguntas perto de mim, e não distinguiu Nova York de Los Angeles, onde o índice foi 0,00.
Medir a minha visibilidade na IA de um lugar só funciona?
Mede pouco. No levantamento da Universidade de Toronto, uma única cidade cobriu 9% das empresas recomendadas nas 15 cidades, cinco cidades cobriram 36% e dez cobriram 69%, sem a curva estabilizar. Quem acompanha a própria marca de um computador só está vendo uma fatia pequena do que a IA responde.