Thiago Khoury

Aparecer numa IA me faz aparecer nas outras? Quase nunca

Quase nunca: 84,9% dos pares de IAs não citaram nenhuma URL em comum, mediu um estudo do arXiv em setembro de 2026. O que isso muda na sua medição.

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Quase nunca. Num estudo publicado no arXiv em 19 de setembro de 2026, 84,9% dos pares de buscadores não citaram nenhuma URL em comum para a mesma pergunta. Ser fonte de um não é ser fonte do outro, e isso muda o que dá para prometer sobre visibilidade em inteligência artificial.

O que o estudo mediu, e onde ele é pequeno

O trabalho se chama Scoring With the Engine, é de Benjamin Tannenbaum e saiu no arXiv em 19 de setembro de 2026. Ele rodou 15 perguntas comerciais fixas em quatro buscadores no mesmo dia, 6 de junho de 2026, e anotou todas as fontes que cada um citou: 589 observações de citação, 528 URLs únicas e 356 domínios. Os motores foram ChatGPT, Microsoft Copilot, Google e Perplexity.

Começo pelo tamanho, porque ele importa. São 15 perguntas, e só dez apareceram nos quatro buscadores. O autor declara isso e mais duas limitações: o assunto é estreito, software de visibilidade em IA, e as citações da tela não são o rastro completo do que o motor leu por dentro. Não é a internet inteira, e sim um corte pequeno, de um dia, com as contas abertas.

Quase nenhuma fonte em comum entre as IAs

O número principal: 84,9% dos pares de buscadores não compartilharam nenhuma URL citada. A semelhança média entre as listas, medida pelo índice de Jaccard, ficou em 0,0079. Nas dez perguntas que rodaram nos quatro motores, 0,0072.

Traduzindo: de cada mil URLs envolvidas na comparação, menos de oito aparecem dos dois lados.

E o corte mais duro: entre as cinco primeiras fontes de cada resposta, a sobreposição foi exatamente zero nas 60 comparações feitas. Nenhuma. As fontes que a pessoa de fato enxerga no topo não se repetem de um buscador para o outro.

Somando tudo: 96,4% das URLs observadas apareceram em um único motor, e cada motor sozinho cobre de 11,4% a 42,6% do conjunto de fontes que os quatro citaram juntos. O ChatGPT ficou com 42,6%, o Google com 24,3%, a Perplexity com 23,6% e o Copilot com 11,4%.

O acaso explicaria mais do que aconteceu

É o que separa o estudo de um levantamento de agência. O autor montou um comparativo de sorteio: se cada buscador pegasse suas fontes ao acaso dentro do conjunto que os quatro citaram naquela pergunta, mantendo o tamanho de cada lista, a semelhança esperada seria 0,1272. O que se mediu foi 0,0072, ou seja, 5,7% do que o puro acaso daria.

Leia de novo, porque é contraintuitivo: os buscadores se parecem menos entre si do que se pareceriam sorteando. E a sobreposição zero, que o sorteio produziria em 12,3% das comparações, aconteceu em 86,7% delas.

Isso desmonta uma ideia confortável, que eu mesmo já usei em reunião: a de que existe um conjunto de páginas boas que toda IA encontra. Se existisse, a semelhança seria maior que o acaso. É menor.

A mesma IA troca as fontes de um dia para o outro

Tem um segundo achado, e é o que mais atrapalha quem vende relatório.

Comparando o mesmo buscador em 5 e em 6 de junho de 2026, o conjunto de URLs citadas trocou, em média, 67,0%. Dois terços das fontes de ontem não são as fontes de hoje, no mesmo motor, com a mesma pergunta.

Quando alguém chega à reunião com o print da IA citando o site do cliente, o print é verdadeiro e não prova quase nada: é a fotografia de um dia. Vi esse filme com posição de palavra-chave nos anos 2010, e a saída foi a mesma: olhar a série, nunca a captura isolada.

O mercado deixou de ter uma IA só

Até pouco tempo dava para tratar ChatGPT como sinônimo de inteligência artificial. Não dá mais, e é isso que transforma o achado acima em problema de caixa.

No relatório trimestral que a Comscore publicou em 22 de setembro de 2026, a fatia do ChatGPT no volume de prompts caiu de 70% em janeiro de 2026 para 50% em junho. O Gemini foi de 17% para 30%, e o Claude, de 2% para 11%. A nota à imprensa não declara o recorte geográfico do painel, então eu não vou dizer que esse desenho vale para o Brasil.

Juntando as duas fontes, e aqui a leitura passa a ser minha: metade das perguntas já acontece fora do ChatGPT, e o que se cita fora do ChatGPT é quase outro conjunto de páginas. Ganhar em um motor cobre menos mercado a cada trimestre que passa.

O que isso quebra na medição de GEO

O alvo declarado do estudo são as notas de visibilidade calculadas sem consultar o buscador, aquele número de 0 a 100 que a ferramenta dá para a sua página.

A conclusão do autor não é que a nota não serve, e sim que ela mede outra coisa: sem rodar a pergunta no motor ao vivo, estima qualidade da página e encaixe com a pergunta. A visibilidade final depende de duas etapas que variam de motor para motor, ser exposto e ser escolhido. Ele pede que as quatro grandezas sejam reportadas separadas, e eu concordo.

É a mesma lição do experimento sobre formatação que detalhei em Formatar o conteúdo faz a IA citar o meu site? Em parte: formatar redistribui crédito entre fontes já recuperadas, e não garante a entrada. E é o outro lado do que o mesmo autor mediu sobre o seu domínio aparecer entre as fontes, em A IA cita a minha marca se encontrar o meu site?.

Onde isso deixa você

Três coisas que mudei na operação por causa dele.

Meço nos quatro, não em um. Relatório com uma IA só descreve, pelo corte desse trabalho, entre 11% e 43% do que existe. O resto some do relatório sem sumir do mercado.

Repito a coleta. Com 67% de troca diária, uma medição isolada é anedota. Fixo as perguntas, repito em intervalos e olho a série, método que descrevo em Investir em GEO vale a pena?.

Não compro nota solta. Pergunto à ferramenta se o número saiu de consulta ao buscador ao vivo ou de análise da página parada. As duas coisas servem, para perguntas diferentes.

A lição de fundo continua a mesma de Qual é a diferença entre SEO e GEO?: ranquear, ser citado e ser recomendado são disputas separadas. Esse estudo acrescenta uma quarta divisão, dentro da disputa por citação: cada motor é um campeonato próprio. E sobre a disputa de ser recomendado pelo nome, os números estão em Por que a IA não recomenda a minha marca?.

Perguntas frequentes

Ser citado no ChatGPT faz a minha página aparecer nas outras IAs?
Quase nunca. Num estudo publicado no arXiv em 19 de setembro de 2026, 84,9% dos pares de buscadores não tiveram nenhuma URL citada em comum para a mesma pergunta, e 96,4% das URLs observadas apareceram em um único buscador. Cada motor monta a própria lista de fontes.
A nota de visibilidade em IA de uma ferramenta prevê citação?
Ela estima a qualidade da página e o encaixe dela com a pergunta, não a visibilidade final. É a conclusão do estudo do arXiv de setembro de 2026: calculada sem consultar o buscador ao vivo, a nota não enxerga a exposição nem a seleção, e essas duas etapas mudam de motor para motor.
As fontes que a IA cita mudam de um dia para o outro?
Mudam muito. O mesmo estudo comparou 5 e 6 de junho de 2026 dentro do mesmo buscador e mediu 67,0% de troca média no conjunto de URLs citadas. Medir visibilidade em IA com uma coleta só, portanto, mede o dia, não a sua posição.