Thiago Khoury

Formatar o conteúdo faz a IA citar o meu site? Em parte

Em parte: subtítulos e listas renderam 0,50 citação a mais por resposta, mediu um experimento do arXiv em setembro de 2026. Ser citado é outra disputa.

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Em parte, e a parte que funciona não é a que o mercado anda vendendo. Um experimento controlado publicado no arXiv em 14 de setembro de 2026 mediu que reescrever uma página com subtítulos e listas rendeu 0,50 citação a mais por resposta, com intervalo de confiança de 95% entre 0,20 e 0,84. O que ele não conseguiu mostrar foi aumento claro na chance de a página ser citada pela primeira vez.

A diferença é entre ocupar mais espaço numa conversa em que você já entrou e conseguir entrar.

O que o experimento fez, e o que ele não fez

O trabalho se chama CiteChoice, é de Sriram Selvam e Anneswa Ghosh, e a pergunta dele é específica: quando dois documentos diferentes sustentam o mesmo fato, por que a IA cita um e não o outro?

Um agente rodando GPT-5.4 respondeu 129 de 130 perguntas cotidianas, obrigado a pesquisar na web antes de responder, fazendo 346 buscas e vendo 1.490 documentos. Desse material os pesquisadores separaram 113 pares em que os dois documentos apareceram na mesma busca e sustentavam o mesmo fato, escolhidos sem olhar a posição nem o resultado final. Uma revisão humana às cegas confirmou 103 desses pares, 91,2% do total.

A parte que dá valor ao estudo vem agora. Cada par foi reprocessado quatro vezes numa gravação congelada da conversa, trocando só duas coisas: a ordem dos dois documentos e a forma do alvo, uma versão em prosa corrida e outra com subtítulos, listas e tabela. As duas versões saíram do mesmo texto de origem, com diferença de tamanho limitada a 25%, e o concorrente ficou intocado. Nenhuma página da internet de verdade foi editada.

Isso importa porque quase tudo que circula sobre GEO é correlação: alguém olha as páginas citadas, vê que muitas têm lista, e conclui que a lista causou a citação. Aqui a lista foi a única coisa que mudou.

O ganho existe, mas é de espaço, não de entrada

O resultado principal ficou em 0,50 citação a mais por resposta para a versão estruturada, e ele se sustenta: o intervalo de confiança vai de 0,20 a 0,84, longe do zero.

O segundo resultado é o que muda a conversa. O efeito sobre simplesmente ser citado ou não, que era a medida declarada como principal antes do experimento começar, ficou em 4,5 pontos percentuais, com intervalo de menos 1,4 a mais 10,4. Isso é inconclusivo, e os autores dizem isso com todas as letras.

Some a isso um detalhe que os próprios autores registram: o total de citações da resposta não aumentou, e o concorrente não perdeu crédito de forma mensurável. Por onde a citação extra apareceu, o estudo não resolve.

A leitura é minha: formatar bem é barato, tem efeito medido e vale fazer, mas é acabamento. Quem vende reescrita em listas como o caminho para aparecer no ChatGPT está vendendo acabamento como fundação.

A posição importa menos do que parece

O estudo também mediu a coisa que todo mundo assume. Na observação bruta, o documento em primeiro lugar foi citado em 85,1% das vezes, contra 42,8% do quinto. São 42,3 pontos de diferença, o tipo de número que vira slide de proposta comercial.

Quando os pesquisadores trocaram a ordem dos dois documentos mantendo todo o resto congelado, o efeito caiu para 7,9 pontos no teste principal, e para zero no teste reservado para confirmação, com intervalo de menos 5,4 a mais 5,4.

Traduzindo: aquela diferença de 42 pontos reflete, em boa medida, que páginas melhores tendem a ficar em cima, não que a posição puxe a citação. É o mesmo erro que o mercado comete quando trata posição como sinônimo de resultado, e sobre o qual escrevi em O clique do primeiro lugar caiu 58% onde a IA responde.

O detalhe que deveria assustar quem mede GEO

Tem um achado no fim do trabalho que, para quem precisa provar resultado, é o mais caro dos três.

Os pesquisadores regeraram as respostas sem mudar absolutamente nada no material. 15% das decisões de citar ou não citar mudaram sozinhas, com 85,0% de concordância entre as rodadas. E a variação do modelo ao escrever responde por cerca de 45% da variância quando se mede uma geração só.

Pense no painel que alguém te vende. Se a medição é “perguntei à IA e a sua marca apareceu”, uma em cada sete respostas sairia diferente só por perguntar de novo. Medir uma vez por semana e apresentar a linha como evolução é apresentar ruído com cara de tendência.

Foi assim que fixei um jeito chato de trabalhar: mesma lista de perguntas, várias rodadas, e só trato como sinal o que se repete. O método está em Investir em GEO vale a pena?, e ele casa com o problema de atribuição de A IA gera tráfego para o meu site?: o canal já influencia antes de conseguir se provar.

O que esse estudo não prova

Três ressalvas, e elas estão no próprio artigo, não são minhas.

É um ambiente só. Um provedor de busca, com cinco resultados por chamada, um modelo, o GPT-5.4, e as conversas que ele mesmo produziu. Nada garante que Gemini, Perplexity ou os AI Overviews se comportem assim.

A gravação é congelada. Como nada foi editado na internet de verdade, o experimento não mede se mexer na sua página faz o buscador encontrá-la mais, que é justamente a etapa anterior à citação.

Citação não é visita nem venda. O que foi medido é crédito visível dentro da resposta. Não é tráfego, não é receita, e não prova que aquela fonte pesou no que o modelo escreveu.

E a comparação não é formatação pura: as duas versões foram reescritas, então têm palavras diferentes. Parte do efeito pode vir da reescrita, não da lista.

Onde isso deixa você

O que eu tiro daqui, para a operação: formate bem, porque é barato e tem efeito medido, e pare de tratar isso como estratégia de GEO. A disputa pela entrada na resposta é outra, e ela começa em ser encontrável e em sustentar o fato específico que a pergunta pede, que é a diferença de território que expliquei em Qual é a diferença entre SEO e GEO?.

E depois de dezenove anos vendo métrica nova chegar sem régua, esse 15% é o aviso mais útil do estudo: antes de contratar qualquer medição de visibilidade em IA, pergunte quantas vezes cada pergunta é feita. Se a resposta for “uma”, você está comprando ruído.

Perguntas frequentes

Formatar o conteúdo com subtítulos e listas faz a IA citar o meu site?
Em parte. Um experimento controlado publicado no arXiv em 14 de setembro de 2026 mediu que a versão estruturada de uma mesma página rendeu 0,50 citação a mais por resposta, com intervalo de confiança de 95% entre 0,20 e 0,84. Já o efeito sobre a chance de a página ser citada alguma vez ficou em 4,5 pontos percentuais e inconclusivo, com intervalo de menos 1,4 a mais 10,4. Ou seja: formatar rendeu mais espaço para quem já estava na resposta, e não provou ser a porta de entrada.
Estar entre os primeiros resultados garante ser citado pela IA?
Menos do que parece. No mesmo estudo, o primeiro resultado foi citado em 85,1% das vezes e o quinto em 42,8%, uma diferença de 42,3 pontos. Mas quando os pesquisadores trocaram a ordem dos dois documentos mantendo todo o resto igual, o efeito caiu para 7,9 pontos no teste principal e para zero no teste reservado. A diferença bruta reflete muito mais a qualidade de quem costuma ficar em cima do que a posição em si.
Dá para medir visibilidade em IA perguntando uma vez?
Não dá. O mesmo experimento regerou as respostas sem mudar nada no material e viu 15% das decisões de citar ou não citar mudarem sozinhas, com 85,0% de concordância entre as rodadas. Uma medição única de presença de marca em resposta de IA carrega esse ruído embutido, e por isso eu só trato como sinal o que se repete em várias medições da mesma pergunta.