Thiago Khoury

Por que a IA não recomenda a minha marca? Não é o tamanho

Zero: L.L.Bean e Black+Decker não apareceram em 1.200 listas de seis IAs, mediu um estudo do arXiv em setembro de 2026. O que prevê é a busca.

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A inteligência artificial não recomenda a sua marca porque a recomendação não acompanha o tamanho dela. Um estudo publicado no arXiv em 14 de setembro de 2026 pediu recomendação de produto a seis modelos de linguagem e registrou zero recomendação para marcas como L.L.Bean, Black+Decker e Philips em 1.200 listas. Não é falta de fama, e é justamente aí que o assunto fica interessante para quem vende.

O que o estudo mediu

O trabalho se chama Evaluating Brand Retrieval and Ranking in Large Language Model Recommendations, de Edward Malthouse e colegas, e a parte mais útil dele não é o resultado: é o método.

Eles fizeram a pergunta genérica de categoria, do tipo “quais as melhores parafusadeiras sem fio”, em seis modelos: GPT-5.5 e GPT-5.4 Mini, Gemini 3.1 Pro Preview e Gemini 2.5 Flash, Claude Opus 4.7 e Claude Sonnet 4.6. As cinco categorias foram parafusadeira sem fio, cafeteira, jaqueta de trilha, ração de gato e cruzeiro marítimo. Cada pergunta foi repetida quarenta vezes em cada modelo, o que dá 1.200 listas de recomendação.

A repetição é o ponto. A mesma pergunta, feita duas vezes ao mesmo modelo, devolve marcas e ordens diferentes. Vejo gente tirar um print de uma resposta do ChatGPT e concluir que está bem posicionada. Uma resposta não é medida de nada. Quarenta são.

As marcas grandes que receberam zero

O resultado que salta é a lista de ausentes. Em jaquetas de trilha, L.L.Bean, Eddie Bauer e REI Co-op não apareceram. Em parafusadeiras, Craftsman e Black+Decker. Em cafeteiras, Braun e Philips. Freshpet em ração de gato, Virgin Voyages e Regent Seven Seas em cruzeiros.

Do outro lado, em parafusadeiras, DeWalt, Milwaukee, Makita, Bosch e Ryobi apareceram entre as cinco primeiras em todas as listas, sem exceção.

Não é uma cauda longa com todo mundo dividindo pedaços. É um clube fechado, e ficar de fora dele não tem nada a ver com ser pequeno: a Philips não é pequena.

O que prevê a recomendação, e o que não prevê

Os autores cruzaram a posição média das marcas com cinco sinais de mercado. O interesse de busca pelo nome, medido no Google Trends, teve correlação de 0,63 com a prominência da recomendação, e foi o coeficiente mais forte e mais seguro da regressão, com 1,0586 e p abaixo de 0,0001. Menção em notícias veio depois, com 0,5844 e p de 0,0321.

Os outros três não sustentaram nada. Conversa online medida pelo Brandwatch ficou em 0,3385 com p de 0,1658. Presença na Wikipédia deu 0,1290 negativo. E a verba de mídia paga deu 0,1434 negativo, também sem significância.

Aqui vai uma leitura minha, não do estudo: o resumo do próprio artigo cita a conversa online entre os sinais associados à prominência, mas na tabela esse coeficiente não passa no teste de significância. Quem ler só o resumo vai sair com uma conclusão mais forte do que os números sustentam. Eu prefiro dizer o que a tabela diz.

E atenção ao coeficiente da mídia paga, porque ele vai ser mal contado por aí. Ele não prova que anúncio não funciona. Prova que anúncio não é o que essa máquina lê para decidir quem citar.

A marca não sumiu, ela não foi chamada

A segunda parte do estudo é a que muda o trabalho.

Eles montaram cem cenários de necessidade, vinte por categoria, do tipo “preciso de uma parafusadeira barata para consertos em casa, sem uso profissional”, e submeteram cada um duas vezes a cada modelo. Outras 1.200 listas.

A Craftsman, que tinha zero na pergunta genérica, apareceu entre as cinco primeiras em 35,4% dessas respostas. A L.L.Bean, em 5,4%.

Depois vieram as sondagens de posicionamento: perguntas que traziam de propósito as características que cada marca reivindica para si. Aí a Craftsman chegou a 81,3% e a L.L.Bean a 88,5%.

Traduzindo para a operação: a marca está dentro do modelo. Ela não foi esquecida, não foi apagada, não foi punida. Ela simplesmente não está ligada, na cabeça da máquina, ao problema que o cliente descreve. Essa ponte é o trabalho, e é exatamente a diferença que eu tento explicar em Qual é a diferença entre SEO e GEO?: não se trata de posição numa lista, se trata de ser convocado.

Vale separar bem as disputas. Ser recomendado pelo nome é uma coisa, ser usado como fonte é outra, e eu mostrei o tamanho desse descolamento em A IA gera tráfego para o meu site?. Mexer na formatação da página ajuda na segunda, pouco, como mediu o experimento que comentei em Formatar o conteúdo faz a IA citar o meu site?.

O que esse estudo não diz

Quatro ressalvas, porque esse dado é bom demais para sair torto.

Não é o Brasil. São cinco categorias, marcas americanas e Google Trends dos Estados Unidos. O comportamento aqui pode ser outro, e ninguém mediu ainda.

Os próprios autores seguram a mão. Eles escrevem que os resultados de Craftsman e L.L.Bean nas perguntas de necessidade e nas sondagens vêm de um conjunto pequeno de perguntas escritas à mão, e que o método precisa de validação em escala com marcas sorteadas.

Correlação de 0,63 não é causa. Não está provado que fazer o povo buscar mais pelo seu nome faz a IA recomendar você. Pode ser que as duas coisas respondam ao mesmo fator por baixo. Isso é leitura minha, e eu não vou vendê-la como número.

Mede lista, não venda. Aparecer numa recomendação é exposição, não receita.

Onde isso deixa você

Três coisas que eu faria amanhã com isso na mão.

Pare de medir uma vez. Fixe as perguntas que os seus clientes realmente fazem e rode cada uma vinte ou quarenta vezes, contando em quantas a sua marca aparece. É esse número que se compara mês a mês, e é assim que eu monto a medição que descrevo em Investir em GEO vale a pena?.

Separe as duas famílias de pergunta. A genérica da categoria você talvez não ganhe nunca, e tudo bem. A de necessidade, aquela em que o cliente descreve a situação dele, é onde a Craftsman saiu de zero para um terço. Escreva no vocabulário do problema, não no da ficha técnica.

E trate a busca pelo seu nome como ativo, não como vaidade. Foi o sinal mais forte dessa medição, e ele nasce de gente sendo apresentada à sua marca em algum outro lugar antes, o que é a própria jornada que descrevi em Como a IA mudou a decisão de compra.

A máquina conhece a sua marca. Ela só ainda não sabe em qual pergunta te chamar.

Perguntas frequentes

Por que a inteligência artificial não recomenda a minha marca?
Porque a recomendação não acompanha o tamanho da marca. Um estudo publicado no arXiv em 14 de setembro de 2026 pediu recomendação de produto a seis modelos de linguagem, quarenta vezes em cada um, e marcas conhecidas como L.L.Bean, Black+Decker e Philips não apareceram em nenhuma das 1.200 listas das suas categorias. Quem apareceu foi sempre o mesmo grupo pequeno de concorrentes.
O que faz uma marca ser recomendada pela IA?
No mesmo estudo do arXiv, o sinal com maior associação foi o interesse de busca pelo nome da marca, com correlação de 0,63 com a posição média da recomendação. Menção em notícias também teve associação positiva e significativa. Verba de mídia paga e presença na Wikipédia não tiveram: os dois coeficientes deram negativos e sem significância estatística.
A IA desconhece as marcas que ela não recomenda?
Não, e essa é a melhor notícia do estudo. A Craftsman, que teve zero recomendação na pergunta genérica de categoria, apareceu entre as cinco primeiras em 81,3% das respostas quando a pergunta trazia as características que a marca reivindica, e a L.L.Bean chegou a 88,5%. A marca está dentro do modelo: o que falta é a pergunta que a convoca.